Vivências, Hospitalidade, Natureza, Gastronomia e Cultura

Pensei como começar a descrever a experiência única que tive hospedado na Monã – propriedade rural de base ecológica localizada em Canela (RS) que, muito além da hospedagem confortável, oferece hospitalidade, vivências, natureza, gastronomia e cultura.

Mona hospedagem - Monã

Resolvi compartilhar com vocês então, três palavras que me vieram à mente: Vivência, Convivência e Conexão. Bem como, uma reflexão a respeito delas.

Vivência: aquilo que se experimentou vivendo.

Convivência: vida em comum, contato diário ou frequente, intimidade, familiaridade.

Quanto à conexão afirmo: Hoje estamos totalmente desconectados!

Você está louco, Ale? Podem me questionar.

Afinal nunca estivemos tão conectados, 24 horas online, para saber sobre tudo e sobre todos ao redor do mundo.

Explico, a palavra conexão foi apropriada de tal forma pela tecnologia, que hoje parecem ter nascido uma para outra, ambas a serviço do universo digital e online.

Simples assim, se você tem celular ou computador com conexão a uma rede, parabéns! É um ser conectado.

Caso contrário, infelizmente, estará desconectado. Correndo o risco, inclusive, de ser xingado de analógico.

Mona recepcao - MonãMona recepcao - Monã

Contudo, trago verdades!

Conexão, antes de mais nada, é ligação, união, vínculo.

Assim, desde 2007 trabalhando com o universo virtual, nunca vi pessoas tão desconectadas de suas próprias vidas.

Aquele sentimento de vazio, que só pode ser preenchido navegando alucinadamente pelas redes sociais, porque parece mais fácil viver a vida dos outros do que encontrar um caminho para a sua.

Penso que essa desconexão e o vazio existencial de muitos seres humanos tem, igualmente, a ver com duas palavras que citei logo acima: Vivência e Convivência.

Mona camas ao ar livre - MonãMona camas ao ar livre - Monã

Queria te fazer algumas perguntas:

Você está experimentando aquilo que está vivendo?

Ou quer apenas ganhar likes mostrando aos outros algo que nem vai lembrar depois, simplesmente porque não viveu de verdade?

Como você tem convivido?

Está criando laços, se fazendo presente na vida de outras pessoas ou dedicando-se apenas a contatos superficiais?

Mona fogao a lenha - MonãMona fogao a lenha - Monã

Monã

Em primeiro lugar, antes de falar sobre a Monã, resolvi escrever um texto de abertura porque acredito que a minha experiência foi, como a sua será, baseada nessas palavras: Vivência, Convivência e Conexão.

Caminhando pela parte principal da propriedade e conversando com Daniel Castelli, que há 15 anos adquiriu essa área de 132 hectares na zona rural de Canela, cidade da Serra Gaúcha, confesso que aprendi muito.

Vivenciei a natureza da Monã. Convivi com o Daniel e sua esposa Aline, pessoas que sabem te acolher não como hóspede, mas como convidado.

Por fim, me conectei com o propósito de todo o empreendimento.

A proposta da Monã é tão simples quanto essencial: resgatar a verdade das coisas!

Monã, na crença tupi-guarani, é o deus criador do mundo, céu, terra e seres vivos.

Antes de mais nada, cabe informar que os índios não tem a noção cristã de céu e inferno, para eles o paraíso é Ybymarã-e’yma ou Terra sem Males.

Lugar onde podem viver com seus ancestrais e deuses, sem guerra, fome ou qualquer outra mazela humana.

Mona frutas - MonãMona frutas - Monã

Conceito

Daniel Castelli chegou na propriedade, que seria a futura Monã, acompanhado de seu pai Geraldo Castelli, fundador da primeira escola de hotelaria do Brasil e autor de mais de 17 livros de referência em hospitalidade.

O local, à princípio, serviu como unidade avançada para os cursos de agroecologia da Castelli Escola Superior de Hotelaria, que hoje está com as atividades encerradas.

Tal empreitada contou com a colaboração de uma equipe multidisciplinar ciente do projeto inovador, como explica Daniel.

“A gente foi buscando se alimentar e beber em várias fontes com vários profissionais para criar o próprio estilo da Monã, porque a gente tem que pegar todas as informações, mas se adaptar a região.

Tu vai andar por aí, tu vai encontrar pedra, tu vai encontrar madeira, tu vai encontrar telha de barro, tu vai encontrar vidro.

Tivemos o arquiteto que foi uma pessoa muito feliz, que trouxe pra cá o conceito das cores, dos formatos, do uso dos materiais.

Biólogo, veterinário, zootecnista, agrônomo, meu pai e eu sempre envolvidos com a questão da hospitalidade”.

Arquitetura

A proposta era fazer algo fora do padrão conhecido, mas usando materiais locais. Mão humana e ferramentas de design integradas à natureza

Então, a partir dos princípios de Feng Shui da Escola Ba Zhai nasceu o projeto arquitetônico da Monã.

Um círculo de pedras foi erigido e, ao redor dele, casas foram construídas, formando a primeira vila.

Dentro desse conceito de aldeia, as construções estão todas voltadas para um círculo. Assim, um enxerga o trabalho do outro, há um resgate do coletivo. A percepção e valorização de cada um com relação ao todo é muito importante.

Uma fogueira, no centro do círculo de pedras, é acessa todas às vezes em que é fundamental celebrar conquistas e mudanças de ciclo.

“Quando a gente olha essa visão dessa casa com o fundo dessa montanha, a gente pensa que a coisa foi feita com sucesso”, finaliza Daniel.

Mona Galinheiro foto 67 - MonãMona Galinheiro foto 67 - Monã

Ciclo sustentável

Por lá, o resíduo de uma unidade vira matéria-prima para outra.

Por exemplo, a marcenaria (Daniel é conhecido por suas tábuas artesanais – mais pra frente falo disso), tem como resíduo a serragem.

Serragem que vira palhada do galinheiro, onde as galinhas estercam e urinam formando um composto.

Composto que é usado para a adubação da horta.

Horta que abastece o restaurante.

Restaurante que gera resíduos de cascas, folhas e restos de alimentos, que voltam para alimentar as galinhas.

Galinhas que produzem os ovos do café da manhã e das refeições do restaurante.

Enfim, o ciclo sempre se reinicia.

Mona Casa Sementeira - MonãMona Casa Sementeira - Monã

Casa Sementeira

Um dos focos da Monã sempre foi a conservação e o resgate de variedades de alimentos e plantas nativas, daí a importância de uma casa especial para guardar as sementes.

Diferente do que nos é apresentado hoje há, por exemplo, uma grande variedade de cenouras, tomates, alhos, entre tantos outros vegetais.

Resgatar o radicchi, folha que os italianos gostavam de comer quando chegaram ao Brasil, foi outra empreitada de Daniel.

“Plantamos há 15 anos nossa variedade de milho crioulo e esse milho a gente mói no vizinho, que tem um moinho de pedra.

E assim, faz nossa própria farinha de onde vem nossa polenta, que é carro-chefe da gastronomia.

A gente começou a cozinhar ao redor do caldeirão de polenta”, explica o proprietário da Monã.

Mona almoco3 - MonãMona almoco3 - Monã

Especialista em permacultura, agrofloresta e tantas outras formas de trabalho sustentável, Castelli me conta sobre como recupera uma área degradada.

“A recuperação é eterna! A gente está sempre melhorando o solo, e graças às técnicas de manejo da agroecologia nós conseguimos ter o resultado de terra propícia pra culturas da região.

Chamamos o processo de adubação verde. Um coquetel de plantas que a gente deixa crescer no verão, são plantas de verão.

Isso tudo, na época do outono, a gente incorpora na terra pra, como diziam os antigos, “engordar a terra”. Deixar ela pronta para as culturas de inverno”.

Mona almoco com Daniel e Aline e1613078407117 - MonãMona almoco com Daniel e Aline e1613078407117 - MonãEu, Jane, Daniel e Aline

Monã – Gastronomia

Antes de mais nada devo dizer que a comida na Monã é uma demonstração de afeto e de esperança na humanidade.

E não é só pelo sabor, afinal comer alimentos orgânicos produzidos por pequenos produtores é incomparável com relação a esse monte de alimentos pasteurizados e anabolizados com agrotóxicos que encontramos nos mercados em geral.

Mona almoco1 - MonãMona almoco1 - Monã

Muito além disso, é pela proposta, pelo entorno, pela preservação, por mostrar que é possível fazer diferente, é possível fazer a diferença. É pela valorização do que é bom, limpo e justo como prega o Slow Food.

Hoje a propriedade já é bastante conhecida por sua produção agroecológica e por comprar aquilo que não produz em fornecedores próximos, que também tem o compromisso com a agroecologia.

Daniel foi durante muitos anos um dos coordenadores da Rede Ecovida. Uma certificação participativa de orgânicos, onde agricultores certificam outros agricultores, que seguem todas as práticas necessárias.

Mona cafe da manha1 - MonãMona cafe da manha1 - Monã

Café da manhã

Incluso na diária, o café da manhã é decerto um indispensável momento de contemplação.

Na mesa embaixo das árvores você receberá alimentos de verdade, preparados por lá ou produzidos artesanalmente nas redondezas.

Diversão das crianças é buscar os ovos do café da manhã no galinheiro, um ritual incentivado pelos proprietários. Mais fresco e saboroso, impossível!

Mona charcutaria - MonãMona charcutaria - Monã

O suco é feito com laranja colhida ali no pé!

As frutas frescas, são todas frescas mesmo! Deles ou dos vizinhos.

Os pães e bolos? Produção caseira.

Assim também, os embutidos, queijos, manteiga, requeijão vieram de pequenos produtores. Bem como, as geleias e meles.

Enfim, sente e exercite a arte de viver sem pressa!

Depois pode deitar numa das redes, ou mesmo numa das camas (é isso mesmo que eu disse!) embaixo das árvores.

Mona almoco - MonãMona almoco - Monã

Almoço e Jantar

Fora o café da manhã, você pode almoçar e jantar na Monã avisando com antecedência, valores cobrados à parte da hospedagem.

Perto do fogo, na churrasqueira e forno à lenha, é que sua comida caseira é preparada.

Já te falei da polenta, carro-chefe da gastronomia da Monã, feita a partir de milho crioulo plantado por eles.

 

 

Coisa rara no Brasil que, infelizmente, tem produzido cada vez mais toneladas de transgênicos em monoculturas. O sabor? Prove e depois me conte!

Mona almoco polenta - MonãMona almoco polenta - Monã

Dos vegetais às carnes, tudo que é servido por lá tem procedência. E o almoço fica muito mais agradável com a presença do Daniel e da Aline.

Ah! E dá uma olhada no Instagram da Monã porque muitas vezes tem almoços especiais aos sábados e domingos, servidos tanto aos hóspedes quanto aos não hóspedes. Inclusive, chega a rolar até uma banda de blues.

Mona Pinsa - MonãMona Pinsa - Monã

Sobre um jantar especial

Como já disse, os anfitriões, Daniel e Aline, tem um ótimo relacionamento com seus vizinhos.

Então, de repente, na sua estada, você pode se deparar com uma surpresa como a que eu tive.

Ah! Todas as noites, o fogo está acesso pronto para uma roda de conversa.

Mona Pinsa churrasqueira - MonãMona Pinsa churrasqueira - Monã

Pinsas romanas e a arte de conviver!

Sempre escrevo por aqui: Penso que a vida é feita de momentos felizes.

Então, quem busca felicidade apenas como meta, percorre o trajeto sem reparar nos grandes encontros ocasionais.

A comida é a arte do encontro! Em torno dela já vivi muitas experiências inesquecíveis. Não apenas pelos sabores, aromas e texturas mas, principalmente, pelas conexões humanas.

Gosto tanto desse assunto: comida e relacionamentos – que exploro, de variadas formas, em meus livros. Afinal, não há romance ou amizade que não aconteça entre talheres e taças.

Assim como, não há troca mais instigante do que a ocorrida em torno do fogo, do compartilhar o alimento. Pessoas que nunca se viram, se revelam, contam coisas, trocam passagens da vida.

Foi carinhoso demais o Dile Valduga preparar suas famosas Pinsas Romanas num jantar muito exclusivo durante a minha estada na acolhedora Monã .

Mona Dile Valduga Pinsa - MonãMona Dile Valduga Pinsa - Monã

As massas deliciosas, crocantes e muito leves, feitas com mix de farinhas e longa fermentação, saiam do forno direto para a brasa da churrasqueira, ganhando um toque defumado especial.

Descobri, entre tantas outras coisas, que o Dile tem um restaurante em Canela (RS) e é um caçador de cogumelos apaixonado!

Provei, inclusive, alguns que ele mesmo colheu na natureza ali perto. Falamos de família, viagem, gastronomia, enquanto comíamos com as mãos.

Aquele tipo de experiência que não tem preço, nem hora, nem local, apenas acontece!

Mona carrinho piquenique - MonãMona carrinho piquenique - Monã

Piquenique

De repente na hora do almoço ou mesmo à tarde, você pode encomendar então um piquenique pra chamar de seu!

Quando menos espera, embaixo de uma árvore de frente para o lago, é disposta uma toalha  e começam a ser espalhadas delícias caseiras, que chegam num charmoso carrinho de mão.

Converse sem moderação, contemple, talvez um pato ou outro do lago venha te visitar, pegue um livro, relaxe, respire, enfim, repare como você está conectado à vida!

Mona Piquenique - MonãMona Piquenique - Monã

Monã – Hospitalidade

“A gente quer cada vez mais estruturar a Monã, dando cada vez mais conforto, mas mantendo esse estilo mais a verdade da coisa.

A verdade da gastronomia, a verdade da hotelaria, a verdade da conservação de uma paisagem.

A valorização da arquitetura, a valorização da cultura, da arte, dos pequenos momentos”.

Mona quarto - MonãMona quarto - Monã

Curioso é que o Daniel, que me disse a frase acima definindo sua propriedade, bem como a Aline e a equipe que trabalha com eles, conseguem mostrar essa verdade sendo apenas quem são.

Se por um lado as pessoas tem vivências junto à natureza, à vida no campo e se deparam com uma arquitetura rústica; por outro há conforto, comodidades e pequenos mimos que encantam os visitantes.

Mona quarto cama - MonãMona quarto cama - Monã

Quer seja a cabeceira da cama, ou o cabideiro de parede feitos pelo Castelli na sua marcenaria, quer seja o bolinho com chá de boa noite, a garrafa de água ou as flores deixadas no quarto pela Aline.

E se a hospedagem é boa, a hospitalidade com que te recebe o casal e sua equipe é ímpar! Nada como os donos cuidarem de você!

Mona Daniel - MonãMona Daniel - Monã

Marcenaria autoral

As tábuas do Daniel, bem como outras peças de marcenaria que ele produz, já são famosas não só no Brasil, como também fora daqui.

Em Gramado, por exemplo, o designer fez um trabalho especial para o Wood Hotel. No Uruguai, a Bodega Garzón possui suas obras. Tábuas que viajaram para todos os cantos do mundo é que não faltam.

Castelli tem essa capacidade de olhar de fora para as coisas e entender o melhor que elas têm para entregar.

Um pedaço de madeira, por exemplo, pode virar uma tábua, respeitando sua forma, tamanho e desenho original.

Mona marcenaria tabuas - MonãMona marcenaria tabuas - Monã

“Que tipo de madeira é essa? Que árvore é essa? O que dá pra se fazer? Que pessoas que nós vamos unir?” questiona-se.

Dessa forma temos o design à serviço da matéria-prima e não ao contrário.

As madeiras proveem de demolição, pedaços achados na natureza, árvores caídas e, igualmente, de fazendas de reflorestamento com certificação de origem.

Os resíduos das tábuas viram outras peças menores. Podendo se transformar em produtos decorativos pra casa, artesanato, colares, brincos, chaveiros.

Enfim, aproveita-se tudo! Até a serragem que, como já expliquei em capítulo anterior, vira palhada pro galinheiro.

Vale visitar a loja virtual do Daniel.

Mona Celeiro Cultural - MonãMona Celeiro Cultural - Monã

Cultural e Artesanal

Entre os planos da Monã está fomentar cada vez mais a cultura e o fazer manual nos espaços da propriedade.

Daniel quer promover oficinas de marcenaria, para os hóspedes e visitantes saírem não só com a experiência, mas também com um objeto que produziram, por exemplo.

Transformar o amplo galpão onde ele criava ovelhas num Celeiro Cultural.

Ponto de encontro para receber artistas da cerâmica, pintura, escultura, bem como outras atividades artesanais e culturais.

A ideia é valorizar pequenos eventos, encontros, reuniões. Espaço e boa vontade é que não faltam.

Mona lenha1 - MonãMona lenha1 - Monã

Conclusão – Sem tempo para pressa!

Melhor de tudo é que para vivenciar a Monã você não precisa, obrigatoriamente, fazer aquele monte de atividades rurais. Você pode apenas sentar e contemplar!

Monã – Serviço

+ informações para se hospedar na Monã ou ter uma experiência de um dia na propriedade acesse o site ou então o Instagram.

Mona Ale - MonãMona Ale - Monã

Enfim…

clique para ler + matérias sobre Turismo Gastronômico

ou então do tópico Cozinhando Ideias

 

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